A Carta do Cacique Seattle, em 1855.
Em 1855, o cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, enviou esta carta ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios. Passaram-se 144 anos. Mas o desabafo do cacique tem uma incrível atualidade...
A carta:
“O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra”. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem.
Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.
Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende.
Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.
Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.
Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.
De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência.
Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum."
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
DIFERENTEMENTE IGUAIS OU IGUALMENTE DIFERENTES?
DIFERENTEMENTE IGUAIS
OU
IGUALMENTE DIFERENTES?
LUIZ MÜLLER
O presente texto, escrito para cadeira Leitura e Elaboração de Textos filosóficos tem por objetivo identificar a forma pela qual o conhecimento ocidental trata a questão das diferenças, quais as soluções e qual o método eficaz que alguns autores consultados apresentam para solucionar isto que identifico como problema para a filosofia ocidental, que é a falta de alternativa, ou até mesmo a interdição e a exclusão dos diferentes do seio da sociedade universalisante, cujos parâmetros começaram a ser estabelecidos de forma definitiva através do pais da filosofia greco-ocidental. A consulta, em função do pouco tempo e também da quase ausência de referências à diferença nos pensadores ocidentais, acaba por ser limitada mas não ineficaz, pois pude identificar pensadores que se preocupam com a diferença, embora não a citem textualmente em alguns casos. Pude assim retomar a leitura de alguns autores os quais havia tempo não lia. E esta retomada me foi importante para identificar aspectos que não havia identificado na obra destes autores quando da primeira leitura, corroborando então aquilo que nos foi apresentado em aula enquanto necessidade de um olhar mais apurado acerca de cada autor, pois na elaboração destes pode haver entendimentos diferentes daqueles que se possa encontrar a uma primeira leitura dos mesmos. O texto retoma as questões que apontei no texto anterior, porém passa pela complementação necessária da aplicação de conhecimentos novos obtidos no decorrer da cadeira.
A diferença, embora evidente, não parece ser a principal preocupação dos pensadores ocidentais. Ao contrário, Platão ao propor o mundo das idéias, relega ao mundo e o que nele existe, apenas o papel de cópias imperfeitas. Já Aristóteles, embora considere o mundo como possibilidade, sinaliza para várias categorias e gêneros no qual todas as coisas e seres estariam enquadrados.
No caso do ser humano, homem e mulher seriam os gêneros adequados. Onde ficam então as diferenças? Mulher negra, homem índio, criança de raça amarela, etc… estão localizada exatamente aonde no nosso conhecimento ocidental?
Onde poderíamos localizar neste mundo do pensamento ocidental os cegos, os portadores de deficiências físicas, os superdotados e todo os demais diferentes entre si?
Ao procurar a palavra diferença em um dicionário de filosofia de José Ferrater Mora, não encontrei a palavra diferença. No entanto, na mesma letra D, encontro as palavras deus, determinismo e dialética entre outras. Todas a seu modo universalisantes, todas a seu modo totalizantes, pois já temos os seus significados. E, no entanto de significados tão diferentes. Por que motivos um pensador deixaria de fora de seu dicionário o significado da palavra diferença? Faltaria significado para ela?
Na república de Platão os poetas e artistas foram expulsos ou não puderam entrar. Só entravam aqueles que utilizavam suas palavras para reproduzir a idéia dos príncipes filósofos. Os demais eram diferentes e não tinham lugar.
Assim também na conteporaneidade, os artistas e poetas que não “rezam pelas cartilhas” do poder, são excluídos. Foi assim na sociedade totalitária soviética, cujos príncipes filósofos entendiam ter encontrado a ciência verdadeira e definitiva. Mas é assim também no ocidente “democrático”, onde artistas e poetas que cantam e contam o que vende, são ‘autorizados” a acessar o seleto mundo dos que “se dão bem”. Aos demais, resta a exclusão.
Os diferentes, se já não são mais queimados nos fornos dos campos de concentração, são no entanto eliminados na Faixa de Gaza ou mortos por inanição em Ruanda.
Os mesmos gregos que inauguraram a Filosofia, são também aqueles que nos legaram a democracia.
Mas se os filósofos se preocuparam e preocupam em encontrar o princípio, que afinal reduziria todas as coisas a uma só, tornando-as potencialmente iguais, a democracia grega alienou e excluiu mulheres, escravos, estrangeiros e crianças. Na historiografia grega encontramos esta democracia estampada. A diferença portanto também ali é excluída. A totalidade democrática não era afinal para todos, somente para os iguais. Iguais a que ou a quem? Quem outorgou a estes a sua igualdade, diferenciando-os dos demais?
A democracia hoje, como na Grécia, não resolve o problema das diferenças. As convenções, tanto naquela época quanto hoje, procuram aproximar da igualdade uma parcela dos diferentes. Mesmo assim parcela significativa continua excluída, seja por questões econômicas, físicas ou políticas.
E aqueles que por opção ou por convenção se sujeitaram ao estatuto da igualdade acabaram por esquecer a diferença que não deixou de existir e se submetem ao status quo estabelecido, do qual são signatários.
Enquanto isto, as ciências, através da biotecnologia e da nanotecnologia, buscam desenvolver cópias perfeitas do que é tão perfeitamente diferente como os seres vivos que habitam sobre a terra.
Haverá como unificar todos os ethos sem a subjugação forçada de uns pelos outros? Haverá forma possível de construir a igualdade respeitando todas as diferenças?
Vivemos um tempo onde é necessário lançar olhares novos sobre os velhos temas como a ética e a política, para que possamos continuar construindo o mundo de forma igual, levando em conta todas as diferenças existentes.
Trilhando caminhos para as respostas as questões apontadas, fui buscar em um texto de Ernildo Stein no livro intitulado Diferença e Metafísica, como este autor vê a questão da diferença.
A universalização para Stein parece conduzir a idéia de que a universalidade propugnada por muitos filósofos e utilizada pelos meios de comunicação, subvertem o indíviduo a mero espectador. Para este autor, a atual fase dos acontecimentos na ordem mundial sustentada pelo e no capitalismo, todos os acontecimentos são transformados em espetáculo e segundo ele, “se é mentira o que aparece, o outro lado, o que move tudo, o que funciona para o espetáculo, é a própria falsidade em sua trivial apoteose”.( Stein, Ernildo. Diferença e Metafísica:ensaios sobre a desconstrução)
Nesta sociedade universalizada a caminhada de um único indivíduo deixa de ter reconhecidas as suas diferenças para ser visto apenas como instrumento para a realização superior da espécie humana.
O que importará o que este indivíduo pensa, aspira e realiza na em sua esfera particular? Sua complexidade e perplexidade é comprimida n um código genético e decifrada no que nele está certo e errado e corrigida para melhor servir o avanço da espécie”.(Stein, E. Dif. e Met.:ensaios sobre a desconstrução, Pág. 79. EDPUC, 2000)
Para Stein, o processo de desconstrução, que no meu entendimento pode ser representado de forma simplificada pela separação entre filosofia, religião e arte, leva ao esquecimento da entificação do ser. Para Stein parece ser a Metafísica destinada a nos levar a um novo começo.
Já para Michel Foucault, ao se pronunciar na sua aula inaugural no Colege de France na década de 60, propõe outro alternativa para o novo começo:
O desejo diz: “Eu não queria ter de entrar nesta ordem arriscada do discurso; não queria ter de me haver com o que tem de categórico e decisivo; gostaria que fosse ao meu redor como uma aparência calma, profunda, indefinidamente aberta,em que os outros respondessem a minha expectativa, e de onde as verdades se elevassem, uma a uma; eu não teria senão de me deixar levar, nela e por ela, como um destroço feliz”. E a intuição me responde: “você não tem por que temer começar; estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está na ordem das leis; que há muito tempo se cuida de sua aparição; que lhe foi preparado um lugar que o honra mas o desarma; e que lhe ocorre ter algum poder, é de nós, que ele advém”. (Foucault, Michel. A Ordem do Discurso, Pág.9 ,Ed. Loiola, S.Paulo, 1996).
Para Foucault, em uma sociedade como a nossa conhecemos muito procedimentos de exclusão. Segundo este autor, uma das formas mais conhecidas é a interdição. Constitui-se na sociedade moderna capitalista o direito privilegiado e exclusivo de quem fala e quem fala é quem detém o poder. Repete-se no discurso destes o chavão da igualdade introjetado pelo discurso propagado pelos meios de comunicação mas não vivido pelo diferente mundo dos que não tem os espaços de poder, e portanto de elaboração do discurso da ordem vigente.
Mas estaria então no discurso e na linguagem a possibilidade da superação das diferenças? Como diz Foucault, com certeza também não é esta a via:
“…a análise do discurso, assim entendida, não desvenda a universalidade de um sentido; ela mostra a luz do dia o jogo da rarefação imposta, como um poder fundamental de afirmação, rarefação, enfim, de afirmação e não generosidade contínua de sentido, e não monarquia do significante”. Ididem, pág. 70)
A diferença continua então excluída e nenhum dos autores, embora reconhecendo a sua existência, consegue desenhar, nas obras analisadas, o caminho definitivo para a superação do problema estabelecido com a visão universal do mundo proposto pelos filósofos desde os primórdios da filosofia.
Ernst Tugendhat em conferência publicada pela Editora da Ulbra, intitulada A Controvérsia sobre os direitos humanos, alerta para o fato de que a democracia parece ser uma autonomia coletiva, mas que quando se fala assim se esquece facilmente que então os indivíduos perderiam sua liberdade individual mais facilmente ainda a possibilidade da decisão por maioria poderia significar a aniquilação do derrotado.
“Falar da autonomia ou liberdade duma coletividade implica uma ambigüidade perigosa. Assim como o vê Rousseau, os indivíduos se coverteriam praticamente em partes do estado, sem vida própria como indivíduos.” (Tugendhat, Ernst. Não Somos de Arame Rígido, Pág 13 , 2002, Canoas,Ed. Da Ulbra)
Assim é necessário estabelecer contratos ou acordos aceitos pelo conjunto para que não haja a discriminação e conseqüente separação da diferença da coletividade estabelecida.
Mas quem estabelece os termos dos contratos ou acordos? Tugendhat se refere por exemplo aos “pais” da constituição americana, tida como símbolo de acordo para a democracia, que eram representantes do ricos. O que eles receavam era a ação da maioria pobre e por isto outorgaram ao povo aquela augusta lei democrática. Já Tomas Nagel, na sua obra A Ultima Palavra, ao discutir a questão da moral, afirma: “O outro enfoque se associa a tradição do contrato social e ao imperativo categórico kantiano. Tal enfoque concede a todos a não igualdade no fornecimento de informações no rumo da totalidade do valor, mas igualdade de status e de tratamento de determinados aspectos.”(Nagel,Thomas, A Ultima Palavra, 1998, UNESP Pág. 145) (Os grifos são meus)
Não me parece fácil encontrar saídas para a questão da diferença no conhecimento ocidental, apesar das poucas obras que consultei para elaborar o presente texto. Por isto uma pergunta me acompanha. Haverá a possibilidade do ser humano chegar a reconhecer todas as diferenças e a partir disto instalar o sistema do “a cada um de acordo com as suas necessidades” sem excluir ninguém? Aliás, esta proposição da necessidade o marxismo a associou a uma outra “de cada um de acordo com as suas possibilidades”, sem perguntar a vontade de cada um para a conclusão definitiva, e assim, como sempre ocorreu, o diferente, cuja vontade não se propunha nem a dar de acordo com a sua possibilidade e nem a receber de acordo com a sua necessidade, restou a aniquilação.
A ciência e a tecnologia, com a possibilidade de intervir na genética excluirão os diferentes, transformando a raça em entes iguais de acordo com as necessidades, desejos e interesses de quem paga para manipular o conhecimento técnico, mantendo a exclusão dos diferentes, como no grande acordo democrático da constituição americana, elaborada pela minoria absoluta mas igual entre si?
Bibliografia:
Foucault, Michel. A Ordem do Discurso,Pág.9 ,Ed. Loiola, S.Paulo, 1996
Stein, E. Dif. e Met.:ensaios sobre a desconstrução, Pág. 79. EDPUC, 2000)
Tugendhat, Ernst. Não Somos de Arame Rígido, Pág 13 , 2002, Canoas,Ed. Da Ulbra
Nagel,Thomas, A Ultima Palavra, 1998, UNESP
OU
IGUALMENTE DIFERENTES?
LUIZ MÜLLER
O presente texto, escrito para cadeira Leitura e Elaboração de Textos filosóficos tem por objetivo identificar a forma pela qual o conhecimento ocidental trata a questão das diferenças, quais as soluções e qual o método eficaz que alguns autores consultados apresentam para solucionar isto que identifico como problema para a filosofia ocidental, que é a falta de alternativa, ou até mesmo a interdição e a exclusão dos diferentes do seio da sociedade universalisante, cujos parâmetros começaram a ser estabelecidos de forma definitiva através do pais da filosofia greco-ocidental. A consulta, em função do pouco tempo e também da quase ausência de referências à diferença nos pensadores ocidentais, acaba por ser limitada mas não ineficaz, pois pude identificar pensadores que se preocupam com a diferença, embora não a citem textualmente em alguns casos. Pude assim retomar a leitura de alguns autores os quais havia tempo não lia. E esta retomada me foi importante para identificar aspectos que não havia identificado na obra destes autores quando da primeira leitura, corroborando então aquilo que nos foi apresentado em aula enquanto necessidade de um olhar mais apurado acerca de cada autor, pois na elaboração destes pode haver entendimentos diferentes daqueles que se possa encontrar a uma primeira leitura dos mesmos. O texto retoma as questões que apontei no texto anterior, porém passa pela complementação necessária da aplicação de conhecimentos novos obtidos no decorrer da cadeira.
A diferença, embora evidente, não parece ser a principal preocupação dos pensadores ocidentais. Ao contrário, Platão ao propor o mundo das idéias, relega ao mundo e o que nele existe, apenas o papel de cópias imperfeitas. Já Aristóteles, embora considere o mundo como possibilidade, sinaliza para várias categorias e gêneros no qual todas as coisas e seres estariam enquadrados.
No caso do ser humano, homem e mulher seriam os gêneros adequados. Onde ficam então as diferenças? Mulher negra, homem índio, criança de raça amarela, etc… estão localizada exatamente aonde no nosso conhecimento ocidental?
Onde poderíamos localizar neste mundo do pensamento ocidental os cegos, os portadores de deficiências físicas, os superdotados e todo os demais diferentes entre si?
Ao procurar a palavra diferença em um dicionário de filosofia de José Ferrater Mora, não encontrei a palavra diferença. No entanto, na mesma letra D, encontro as palavras deus, determinismo e dialética entre outras. Todas a seu modo universalisantes, todas a seu modo totalizantes, pois já temos os seus significados. E, no entanto de significados tão diferentes. Por que motivos um pensador deixaria de fora de seu dicionário o significado da palavra diferença? Faltaria significado para ela?
Na república de Platão os poetas e artistas foram expulsos ou não puderam entrar. Só entravam aqueles que utilizavam suas palavras para reproduzir a idéia dos príncipes filósofos. Os demais eram diferentes e não tinham lugar.
Assim também na conteporaneidade, os artistas e poetas que não “rezam pelas cartilhas” do poder, são excluídos. Foi assim na sociedade totalitária soviética, cujos príncipes filósofos entendiam ter encontrado a ciência verdadeira e definitiva. Mas é assim também no ocidente “democrático”, onde artistas e poetas que cantam e contam o que vende, são ‘autorizados” a acessar o seleto mundo dos que “se dão bem”. Aos demais, resta a exclusão.
Os diferentes, se já não são mais queimados nos fornos dos campos de concentração, são no entanto eliminados na Faixa de Gaza ou mortos por inanição em Ruanda.
Os mesmos gregos que inauguraram a Filosofia, são também aqueles que nos legaram a democracia.
Mas se os filósofos se preocuparam e preocupam em encontrar o princípio, que afinal reduziria todas as coisas a uma só, tornando-as potencialmente iguais, a democracia grega alienou e excluiu mulheres, escravos, estrangeiros e crianças. Na historiografia grega encontramos esta democracia estampada. A diferença portanto também ali é excluída. A totalidade democrática não era afinal para todos, somente para os iguais. Iguais a que ou a quem? Quem outorgou a estes a sua igualdade, diferenciando-os dos demais?
A democracia hoje, como na Grécia, não resolve o problema das diferenças. As convenções, tanto naquela época quanto hoje, procuram aproximar da igualdade uma parcela dos diferentes. Mesmo assim parcela significativa continua excluída, seja por questões econômicas, físicas ou políticas.
E aqueles que por opção ou por convenção se sujeitaram ao estatuto da igualdade acabaram por esquecer a diferença que não deixou de existir e se submetem ao status quo estabelecido, do qual são signatários.
Enquanto isto, as ciências, através da biotecnologia e da nanotecnologia, buscam desenvolver cópias perfeitas do que é tão perfeitamente diferente como os seres vivos que habitam sobre a terra.
Haverá como unificar todos os ethos sem a subjugação forçada de uns pelos outros? Haverá forma possível de construir a igualdade respeitando todas as diferenças?
Vivemos um tempo onde é necessário lançar olhares novos sobre os velhos temas como a ética e a política, para que possamos continuar construindo o mundo de forma igual, levando em conta todas as diferenças existentes.
Trilhando caminhos para as respostas as questões apontadas, fui buscar em um texto de Ernildo Stein no livro intitulado Diferença e Metafísica, como este autor vê a questão da diferença.
A universalização para Stein parece conduzir a idéia de que a universalidade propugnada por muitos filósofos e utilizada pelos meios de comunicação, subvertem o indíviduo a mero espectador. Para este autor, a atual fase dos acontecimentos na ordem mundial sustentada pelo e no capitalismo, todos os acontecimentos são transformados em espetáculo e segundo ele, “se é mentira o que aparece, o outro lado, o que move tudo, o que funciona para o espetáculo, é a própria falsidade em sua trivial apoteose”.( Stein, Ernildo. Diferença e Metafísica:ensaios sobre a desconstrução)
Nesta sociedade universalizada a caminhada de um único indivíduo deixa de ter reconhecidas as suas diferenças para ser visto apenas como instrumento para a realização superior da espécie humana.
O que importará o que este indivíduo pensa, aspira e realiza na em sua esfera particular? Sua complexidade e perplexidade é comprimida n um código genético e decifrada no que nele está certo e errado e corrigida para melhor servir o avanço da espécie”.(Stein, E. Dif. e Met.:ensaios sobre a desconstrução, Pág. 79. EDPUC, 2000)
Para Stein, o processo de desconstrução, que no meu entendimento pode ser representado de forma simplificada pela separação entre filosofia, religião e arte, leva ao esquecimento da entificação do ser. Para Stein parece ser a Metafísica destinada a nos levar a um novo começo.
Já para Michel Foucault, ao se pronunciar na sua aula inaugural no Colege de France na década de 60, propõe outro alternativa para o novo começo:
O desejo diz: “Eu não queria ter de entrar nesta ordem arriscada do discurso; não queria ter de me haver com o que tem de categórico e decisivo; gostaria que fosse ao meu redor como uma aparência calma, profunda, indefinidamente aberta,em que os outros respondessem a minha expectativa, e de onde as verdades se elevassem, uma a uma; eu não teria senão de me deixar levar, nela e por ela, como um destroço feliz”. E a intuição me responde: “você não tem por que temer começar; estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está na ordem das leis; que há muito tempo se cuida de sua aparição; que lhe foi preparado um lugar que o honra mas o desarma; e que lhe ocorre ter algum poder, é de nós, que ele advém”. (Foucault, Michel. A Ordem do Discurso, Pág.9 ,Ed. Loiola, S.Paulo, 1996).
Para Foucault, em uma sociedade como a nossa conhecemos muito procedimentos de exclusão. Segundo este autor, uma das formas mais conhecidas é a interdição. Constitui-se na sociedade moderna capitalista o direito privilegiado e exclusivo de quem fala e quem fala é quem detém o poder. Repete-se no discurso destes o chavão da igualdade introjetado pelo discurso propagado pelos meios de comunicação mas não vivido pelo diferente mundo dos que não tem os espaços de poder, e portanto de elaboração do discurso da ordem vigente.
Mas estaria então no discurso e na linguagem a possibilidade da superação das diferenças? Como diz Foucault, com certeza também não é esta a via:
“…a análise do discurso, assim entendida, não desvenda a universalidade de um sentido; ela mostra a luz do dia o jogo da rarefação imposta, como um poder fundamental de afirmação, rarefação, enfim, de afirmação e não generosidade contínua de sentido, e não monarquia do significante”. Ididem, pág. 70)
A diferença continua então excluída e nenhum dos autores, embora reconhecendo a sua existência, consegue desenhar, nas obras analisadas, o caminho definitivo para a superação do problema estabelecido com a visão universal do mundo proposto pelos filósofos desde os primórdios da filosofia.
Ernst Tugendhat em conferência publicada pela Editora da Ulbra, intitulada A Controvérsia sobre os direitos humanos, alerta para o fato de que a democracia parece ser uma autonomia coletiva, mas que quando se fala assim se esquece facilmente que então os indivíduos perderiam sua liberdade individual mais facilmente ainda a possibilidade da decisão por maioria poderia significar a aniquilação do derrotado.
“Falar da autonomia ou liberdade duma coletividade implica uma ambigüidade perigosa. Assim como o vê Rousseau, os indivíduos se coverteriam praticamente em partes do estado, sem vida própria como indivíduos.” (Tugendhat, Ernst. Não Somos de Arame Rígido, Pág 13 , 2002, Canoas,Ed. Da Ulbra)
Assim é necessário estabelecer contratos ou acordos aceitos pelo conjunto para que não haja a discriminação e conseqüente separação da diferença da coletividade estabelecida.
Mas quem estabelece os termos dos contratos ou acordos? Tugendhat se refere por exemplo aos “pais” da constituição americana, tida como símbolo de acordo para a democracia, que eram representantes do ricos. O que eles receavam era a ação da maioria pobre e por isto outorgaram ao povo aquela augusta lei democrática. Já Tomas Nagel, na sua obra A Ultima Palavra, ao discutir a questão da moral, afirma: “O outro enfoque se associa a tradição do contrato social e ao imperativo categórico kantiano. Tal enfoque concede a todos a não igualdade no fornecimento de informações no rumo da totalidade do valor, mas igualdade de status e de tratamento de determinados aspectos.”(Nagel,Thomas, A Ultima Palavra, 1998, UNESP Pág. 145) (Os grifos são meus)
Não me parece fácil encontrar saídas para a questão da diferença no conhecimento ocidental, apesar das poucas obras que consultei para elaborar o presente texto. Por isto uma pergunta me acompanha. Haverá a possibilidade do ser humano chegar a reconhecer todas as diferenças e a partir disto instalar o sistema do “a cada um de acordo com as suas necessidades” sem excluir ninguém? Aliás, esta proposição da necessidade o marxismo a associou a uma outra “de cada um de acordo com as suas possibilidades”, sem perguntar a vontade de cada um para a conclusão definitiva, e assim, como sempre ocorreu, o diferente, cuja vontade não se propunha nem a dar de acordo com a sua possibilidade e nem a receber de acordo com a sua necessidade, restou a aniquilação.
A ciência e a tecnologia, com a possibilidade de intervir na genética excluirão os diferentes, transformando a raça em entes iguais de acordo com as necessidades, desejos e interesses de quem paga para manipular o conhecimento técnico, mantendo a exclusão dos diferentes, como no grande acordo democrático da constituição americana, elaborada pela minoria absoluta mas igual entre si?
Bibliografia:
Foucault, Michel. A Ordem do Discurso,Pág.9 ,Ed. Loiola, S.Paulo, 1996
Stein, E. Dif. e Met.:ensaios sobre a desconstrução, Pág. 79. EDPUC, 2000)
Tugendhat, Ernst. Não Somos de Arame Rígido, Pág 13 , 2002, Canoas,Ed. Da Ulbra
Nagel,Thomas, A Ultima Palavra, 1998, UNESP
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
SOMOS TODOS CULPADOS PELA RUÍNA DO PLANETA
Somos todos culpados pela ruína do planeta
Eduardo Galeano
A saúde do mundo está um asco. 'Somos todos responsáveis', clamam a vozes de alarme universal, e esta generalização absolve: se todos nós somos responsáveis, ninguém o é. Tais como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio ambiente. É a taxa de natalidade mais alta do mundo: os peritos geram peritos e mais peritos que se ocupam em envolver o tema no papel celofane da ambigüidade.
Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao 'sacrifício de todos' nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras – inundação que ameaçam converter-se numa catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada de ozônio – não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial afoga a realidade para conceder impunidade à sociedade de consumo, a qual é imposta como modelo em nome do desenvolvimento e das grandes empresas que lhes extraem o sumo.
Mas as estatísticas confessam. Os dados ocultos debaixo do palavrório revelam que 20 por cento da humanidade cometem 80 por cento das agressões contra a natureza, crime a que os assassinos chamam suicídio e é a humanidade inteira quem paga as conseqüências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não renováveis.
A senhora Harlem Bruntland, que dirige o governo da Noruega, comprovou recentemente que se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, "fariam falta 10 planetas como o nosso para satisfazer todas as suas necessidades". Uma experiência impossível. Mas os governantes dos países do Sul que prometem a entrada no Primeiro Mundo, passaporte mágico que tornará ricos e felizes todos nós, não deveriam apenas ser processados por roubo. Não estão apenas nos gozando, não: além disso, esses governantes estão cometendo o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se apresenta como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que nos está enfermando o corpo, envenenando a alma e nos deixando sem mundo.
2. É verde o que se pinta de verde.
Agora os gigantes da indústria química fazem a sua publicidade em cor verde, e o Banco Mundial lava a sua imagem repetindo a palavra ecologia a cada página dos seus relatórios e tingindo de verde os seus empréstimos. "Nas condições dos nossos empréstimos há normais ambientais estritas", esclarece o presidente do supremo banco do mundo.
Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação. Quando o Parlamento do Uruguai aprovou uma tímida lei de defesa do meio ambiente, as empresas que lançam veneno para o ar e apodrecem as águas sacaram subitamente a sua recém comprada máscara verde e gritaram a sua verdade em termos que poderiam ser assim resumidos: "os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotar o desenvolvimento econômico e a espantar o investimento estrangeiro".
O Banco Mundial, em contrapartida, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez por reunir tantas virtudes, o Banco manejará, junto à ONU, o recém criado Fundo para o Meio Ambiente Mundial. Este imposto sobre a má consciência disporá de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza.
Intenção inquestionável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está a admitir, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um fraco favor ao meio ambiente. O Banco se chama Mundial, assim como o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato onde come.
Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos países cativos que a título de serviço da dívida pagam aos seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe a sua política econômica em função do dinheiro que concede e promete.
A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite estufar de quinquilharias as grandes cidades do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, apodrecem as águas que os alimentam e uma crosta seca cobre desertos que antes foram florestas.
3. Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.
Pode-se dizer tudo de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bom Al sempre enviava flores aos velórios das suas vítimas. As empresas gigantes da indústria química, petrolífera e automobilística pagaram boa parte das despesas da Eco 92, a conferência internacional que no Rio de Janeiro se ocupou da agonia do planeta.
E essa conferência, chamada Cimeira da Terra, não condenou as transnacionais que produzem poluição e dela vivem, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno. No grande baile de máscaras do fim do milênio, até a indústria química veste-se de verde.
A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo, que para ajudar a natureza estão inventando novos cultivos biotecnológicos. Mas estes desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, procuram sim novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas de sementes do mundo, seis fabricam pesticidas (Sandoz, Ciba-Geigy, Dekalb, Pfiezer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.
A recuperação do planeta ou o que nos resta dele implica a denúncia da impunidade do dinheiro e a liberdade humana. A ecologia neutral, que se parece antes com a jardinagem, faz-se cúmplice da injustiça de um mundo onde a comida sã, a água limpa, o ar puro e o silêncio não sã direitos de todos e sim privilégios dos poucos que podem pagá-los.
Chico Mendes, operário da borracha, caiu assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por crer naquilo que acreditava: que a militância ecológica não pode ser divorciada da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não poderá ser salva enquanto não se fizer a reforma agrária no Brasil. Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados a cada ano na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão para as cidades abandonando as plantações do interior.
Adaptando os números de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentar pela invasão incessante de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem mudar dentro dos limites da ecologia, surda perante o clamor social e cega perante o compromisso político.
4. A natureza está fora de nós.
Nos seus 10 mandamentos, Deus esqueceu de mencionar a natureza. Dentre as ordens que nos enviou do monte Sinai, o Senhor teria podido acrescentar, por exemplo: "Honrarás a natureza da qual fazes parte". Mas isso não lhe ocorreu.
Há cinco séculos, quando a América foi apresada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu a ecologia com a idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestir jamais descascavam o tronco inteiro, para não aniquilar a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansar a terra.
A civilização que vinha impor as devastadoras monoculturas de exportação não podia entender as culturas integradas na natureza, e confundiu-as com a vocação demoníaca ou a ignorância. Para a civilização que se diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que era preciso domar e castigar a fim de que funcionasse como uma máquina, posta ao nosso serviço desde sempre e para sempre.
A natureza, que era eterna, devia-nos escravatura. Muito recentemente soubemos que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e soubemos que, como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala em submeter a natureza, agora até os seus verdugos dizem que há que protegê-la. Mas tanto num como noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós.
A civilização que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento e o grandote com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper o seu próprio céu.
Eduardo Galeano, escritor uruguaio, é autor de “As veias aberta da América Latina”, entre outros livros.
Publicado originalmente em http://www.resumenlatinoamericano.org/
Eduardo Galeano
A saúde do mundo está um asco. 'Somos todos responsáveis', clamam a vozes de alarme universal, e esta generalização absolve: se todos nós somos responsáveis, ninguém o é. Tais como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio ambiente. É a taxa de natalidade mais alta do mundo: os peritos geram peritos e mais peritos que se ocupam em envolver o tema no papel celofane da ambigüidade.
Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao 'sacrifício de todos' nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre. Estas cataratas de palavras – inundação que ameaçam converter-se numa catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada de ozônio – não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial afoga a realidade para conceder impunidade à sociedade de consumo, a qual é imposta como modelo em nome do desenvolvimento e das grandes empresas que lhes extraem o sumo.
Mas as estatísticas confessam. Os dados ocultos debaixo do palavrório revelam que 20 por cento da humanidade cometem 80 por cento das agressões contra a natureza, crime a que os assassinos chamam suicídio e é a humanidade inteira quem paga as conseqüências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não renováveis.
A senhora Harlem Bruntland, que dirige o governo da Noruega, comprovou recentemente que se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, "fariam falta 10 planetas como o nosso para satisfazer todas as suas necessidades". Uma experiência impossível. Mas os governantes dos países do Sul que prometem a entrada no Primeiro Mundo, passaporte mágico que tornará ricos e felizes todos nós, não deveriam apenas ser processados por roubo. Não estão apenas nos gozando, não: além disso, esses governantes estão cometendo o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se apresenta como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que nos está enfermando o corpo, envenenando a alma e nos deixando sem mundo.
2. É verde o que se pinta de verde.
Agora os gigantes da indústria química fazem a sua publicidade em cor verde, e o Banco Mundial lava a sua imagem repetindo a palavra ecologia a cada página dos seus relatórios e tingindo de verde os seus empréstimos. "Nas condições dos nossos empréstimos há normais ambientais estritas", esclarece o presidente do supremo banco do mundo.
Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação. Quando o Parlamento do Uruguai aprovou uma tímida lei de defesa do meio ambiente, as empresas que lançam veneno para o ar e apodrecem as águas sacaram subitamente a sua recém comprada máscara verde e gritaram a sua verdade em termos que poderiam ser assim resumidos: "os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotar o desenvolvimento econômico e a espantar o investimento estrangeiro".
O Banco Mundial, em contrapartida, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez por reunir tantas virtudes, o Banco manejará, junto à ONU, o recém criado Fundo para o Meio Ambiente Mundial. Este imposto sobre a má consciência disporá de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza.
Intenção inquestionável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está a admitir, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um fraco favor ao meio ambiente. O Banco se chama Mundial, assim como o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato onde come.
Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos países cativos que a título de serviço da dívida pagam aos seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe a sua política econômica em função do dinheiro que concede e promete.
A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite estufar de quinquilharias as grandes cidades do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, apodrecem as águas que os alimentam e uma crosta seca cobre desertos que antes foram florestas.
3. Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.
Pode-se dizer tudo de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bom Al sempre enviava flores aos velórios das suas vítimas. As empresas gigantes da indústria química, petrolífera e automobilística pagaram boa parte das despesas da Eco 92, a conferência internacional que no Rio de Janeiro se ocupou da agonia do planeta.
E essa conferência, chamada Cimeira da Terra, não condenou as transnacionais que produzem poluição e dela vivem, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno. No grande baile de máscaras do fim do milênio, até a indústria química veste-se de verde.
A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo, que para ajudar a natureza estão inventando novos cultivos biotecnológicos. Mas estes desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, procuram sim novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas de sementes do mundo, seis fabricam pesticidas (Sandoz, Ciba-Geigy, Dekalb, Pfiezer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.
A recuperação do planeta ou o que nos resta dele implica a denúncia da impunidade do dinheiro e a liberdade humana. A ecologia neutral, que se parece antes com a jardinagem, faz-se cúmplice da injustiça de um mundo onde a comida sã, a água limpa, o ar puro e o silêncio não sã direitos de todos e sim privilégios dos poucos que podem pagá-los.
Chico Mendes, operário da borracha, caiu assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por crer naquilo que acreditava: que a militância ecológica não pode ser divorciada da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não poderá ser salva enquanto não se fizer a reforma agrária no Brasil. Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados a cada ano na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão para as cidades abandonando as plantações do interior.
Adaptando os números de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentar pela invasão incessante de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem mudar dentro dos limites da ecologia, surda perante o clamor social e cega perante o compromisso político.
4. A natureza está fora de nós.
Nos seus 10 mandamentos, Deus esqueceu de mencionar a natureza. Dentre as ordens que nos enviou do monte Sinai, o Senhor teria podido acrescentar, por exemplo: "Honrarás a natureza da qual fazes parte". Mas isso não lhe ocorreu.
Há cinco séculos, quando a América foi apresada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu a ecologia com a idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestir jamais descascavam o tronco inteiro, para não aniquilar a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansar a terra.
A civilização que vinha impor as devastadoras monoculturas de exportação não podia entender as culturas integradas na natureza, e confundiu-as com a vocação demoníaca ou a ignorância. Para a civilização que se diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que era preciso domar e castigar a fim de que funcionasse como uma máquina, posta ao nosso serviço desde sempre e para sempre.
A natureza, que era eterna, devia-nos escravatura. Muito recentemente soubemos que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e soubemos que, como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala em submeter a natureza, agora até os seus verdugos dizem que há que protegê-la. Mas tanto num como noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós.
A civilização que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento e o grandote com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper o seu próprio céu.
Eduardo Galeano, escritor uruguaio, é autor de “As veias aberta da América Latina”, entre outros livros.
Publicado originalmente em http://www.resumenlatinoamericano.org/
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
LIVRO FORA DA CAVERNA
(UMA APOLOGIA AO MITO DA CAVERNA DE PLATÃO)A idéia inicial de escrever este texto surgiu das inúmeras vezes nas quais fui interpelado sobre questões relacionadas à minha formação por pessoas do meu convívio, mas leigas na área. O texto a seguir é a tentativa de expor da forma mais acessível possível questões para as quais se poderiam preencher enciclopédias. Peço desculpas assim aos meus colegas se em alguns pontos posso parecer muito sucinto, mas é a forma com a qual espero ser melhor compreendido pelos amigos de outras áreas, despertando neles a amizade pelo conhecimento. Assim, pela solicitação de alguns amigos, atrevo-me a desenvolver um texto que contenha as correlações que o Mito da Caverna pode proporcionar com a realidade. Desta apologia, surge o intuito de instigar a reflexão da metáfora Fora da Caverna.
Neste excelente exercício, percorreremos um caminho em que teremos como objetivo: repensar os conceitos básicos da relação entre os mais favorecidos e os que pouco possuem. Sobre como a realidade é mascarada e manipulada pelo sistema dominador.
Sempre me fascinaram as idéias platônicas. Entre elas, O Mito da Caverna despertou grande interesse e proporcionou muitos questionamentos em relação ao sistema em que vivemos. Em homenagem aos amantes de uma boa conversa filosófica decido escrever sobre esse assunto. Para esse fim, utilizo bons autores, e, sem a preocupação acadêmica solto, o pensamento livremente. Com poucas referências, apenas com o cuidado de ressaltar algumas idéias importantes de textos utilizados. Deixo algumas reflexões sobre o comportamento dos homens, seus conflitos em relação ao próximo, seus valores e algumas mudanças de comportamento que seriam produtivas a sociedade.
A finalidade ao abordar o Mito da Caverna é estabelecer uma relação com o comportamento humano, como este se mantém inserido na influência que a sociedade sofre e construir uma concepção sobre como agimos, o que podemos fazer para alterar essa alienação e como conduzir o pensar livremente sem a influência externa. Como e de que forma utilizar as ferramentas do pensamento puro para formular uma análise crítica das nossas possibilidades de mudança frente ao que enfrentamos. Para esse fim, serão analisadas as idéias básicas do Mito da Caverna, sua exposição feita por Platão no livro VII da República, onde faz uma relação com a morte de Sócrates, bem como com nossa maneira de viver atualmente. Também serão trabalhadas as influências que os veículos de comunicação representam na formação intelectual e cultural do ser humano, a influência e o direcionamento que impõem à sociedade.
Nessa reflexão, será abordada uma relação a nossa inclusão ou não no paradigma do Mito da Caverna, a possibilidade de sairmos das cavernas existentes e buscar fora destas uma compreensão mais apurada da realidade. Não é nossa intenção delimitar problemas, abordar a influência sócio-econômica e sócio-cultural. Não queremos realizar inferência sobre a sociedade como um todo, mas o que analisamos sobre as perspectivas e possibilidades do pensamento humano, e como este pode se libertar do condicionamento que sofre. Com estes elementos trabalhados, buscar uma compreensão clara e realista da situação de dominação que sofrem os indivíduos.
O tema proposto realça a importância do cumprimento ético que deve ser utilizado pelos veículos de comunicação para construir uma vivência verdadeira e realista em todos os aspectos desta relação. Com este posicionamento, o Mito da Caverna propõe uma relação com a programação utilizada pela mídia eletrônica que induz o pensar, o agir dos indivíduos, determina seus comportamentos, e utilizando-se da persuasão manipula e direciona as atitudes humanas. Desta forma, a mídia retrata as sombras obscuras da caverna que vivemos, podendo assim nivelar o pensar e o agir social.
Nosso objetivo é identificar e mostrar que é possível observar outras formas de enxergar a realidade. Avaliar os paradigmas que nos são apresentados, identificar como somos induzidos pela mídia em nosso dia a dia, o poder que os veículos de comunicação têm sobre as pessoas e como o senso-comum é construído.
Com o Mito da Caverna podemos formular hipóteses e construir um questionamento racional lógico sobre como enxergamos a realidade. Observar os fatos, como eles realmente são em sua essência, sua importância para nossas vidas e como utilizá-los de maneira adequada para nosso crescimento intelectual e social.
Direciono estas palavras principalmente aos amigos pelos momentos de reflexão e aos jovens iniciantes da filosofia. Agradeço em especial a minha esposa Luciana a alegria das conversas que tivemos sobre os conflitos enfrentados pelo ser humano.
Dedico estas palavras a minha filha Jéssica, ao meu filho Lucas, a minha neta Carolina e a minha família. Que estas palavras sirvam como instrumento de reflexão em suas vidas.
A decisão de reproduzir este artigo em cópias virtuais em CD foi a maneira mais simples e popular que encontrei para distribuir aos amigos este texto. Nos anexos, serão encontrados alguns artigos importantes na compreensão do assunto. Também alguns livros básicos da filosofia que servirão para aprofundar o leitor no contexto filosófico, algumas mensagens e algumas fotos pessoais.
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